Turismo para cegos - Tércia Montenegro



Logo de início a história prende. Pierre, um sujeito que passa um ar esnobe e de moço "nojentinho, surpreende com uma instigante história para contar. Assim, inicia-se o livro, apresentando alguns personagens que ao logo da leitura se transformam, se desenrolam com outros enredos, outra percepção sobre eles. 

"Quem passa a vida circulando pelos mesmos lugares tem a alma redonda e funda; quem se desloca e atravessa continentes tem a alma longa, cheia de vértices." pg 16

Laila, outra personagem desse romance, é a jovem acometida por uma retinose pigmentar. Artista, pintora, que pela ironia infeliz dessa vida recebe o diagnóstico de que ficaria cega. Aparentemente uma personagem forte, que, de início, recebeu a doença com quase resignação, não se demorava muito quando os outros vinham com lástimas e apenas não pensava que aquilo poderia ou não mudá-la de alguma forma. 

"Se os amantes pudessem recordar as ideias que tiveram um do outro nos primeiros contatos, provavelmente ficariam espantados com o desprezo inicial, até mesmo o nojo, uma recusa prévia por alguém que adiante se fará indispensável. O processo de conquista torna a maioria das pessoas incoerente [...]" pg 21

A história passa a se desenrolar e vamos seguindo Laila e a sua doença. As mudanças começam a ocorrer com a entrada dessa na natação e a aparição de novos personagens. A cegueira passa a ditar na personagem uma transformação da mesma e é em Pierre que isso se volta. A própria relação entre eles, que antes tinha um tom, passa a claramente se transformar diante da mesquinhez e do egoísmo de ambos diante dessa situação. 

O narrador da história é uma interessante descoberta feita no decorrer. É uma história cheia de introspecções e reflexões sobre o cotidiano da vida, a mesquinhez das relações humanas, o convívio no social. Turismo para cegos surpreende e nos prende até a última página, com um desfecho que tem um tom identificatório e de colagem no outro que impressiona. 

Tércia Montenegro soube burilar um romance com forte teor psicológico com diversos momentos de imersão que davam um colorido a narrativa. Na verdade, nunca estivemos às cegas aqui, pelo contrário, o romance ia despertando o nosso olhar de leitor a cada desenrolar, passeio, explosão das personagens, a cada curiar da narrativa. Em seu romance de estréia, a autora nos trouxe uma história pesada, de fazer pensar as relações humanas, as repetições e prisões que muitas vezes nos cercam na vida. É poesia e imagem durante toda leitura do seu texto. É o despertar para a cegueira cotidiana dos nossos dias e dias. 






*Terminei o livro ano passado, mas fiquei ainda matutando escritas mesmo em cima da minha primeira impressão rabiscada. Ainda não disse tudo que fosse possível, a palavra sempre falta e é isso que nos coloca no patamar do humano, essa falta estrutural. Hoje, cada vez mais essa leitura faz sentido e me remete como coisa boa, dessas que prendem a gente e não se esquece mais. 


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